Bíblias, códigos formais e informais
relacionam orientações, determinações, dogmas e preceitos que ilustram muito
bem o nível intelectual das tribos e nações que os criaram. O conhecimento
humano e o desafio de sobreviver em ambientes hostis assim como a necessidade
de disciplinamento de multidões, inclusive de indivíduos que sempre tiveram a
maravilhosa base para serem rebeldes, inovadores, assim como instintos, pulsões
e força para contestar levaram sábios e líderes a associar “constituições”,
leis, normas e critérios de julgamento a poderes muito acima da capacidade de
confrontação dos seres humanos. Deuses e espíritos bons e maus foram
extremamente importantes, talvez hoje mais ainda, para conter a selvageria e
comportamentos indesejados pelos poderosos.
Infelizmente a crença em um chefe
todo poderoso, um ser que premia ou pune os descrentes ou desafiantes também
sustenta fanáticos que podem ultrapassar todas as fronteiras do respeito ao ser
humano.
Códigos morais sempre foram, eventualmente,
foram pragmáticos. Note-se que pragmatismo é um conceito desenvolvido no século
19,
mas, na prática, sempre existiu. Entre pensadores e formuladores de teorias
morais evoluiu para uma proposta de raciocínio eficaz,
algo com muitos desdobramentos no mundo do gerenciamento de empresas, por
exemplo.
A visão pragmática (Pragmatismo) é diferente da
utilitarista,
pois acima de tudo propõe a racionalização da vida e não a subordinação a
visões imediatistas de custo e benefício. É sempre importante lembrar que a
Humanidade foi, acima de tudo, utilitarista. Os sacrifícios, fogueiras,
degredos, diásporas e cruzadas, penitências e vidas de isolamento social instrumentalizaram
a “economia” do medo e da fé.
As propostas morais existiram e estão
por aí a serviço dos poderosos.
Na luta para conter transformações
indesejadas àqueles que ocupam cargos de comando inventaram os dogmas,
os tabus,
cláusulas pétreas e
maldições que travaram o desenvolvimento humano, pois, como disse Bertrand
Russell em seu livro (Principles of Social Reconstruction): “A certeza absoluta
é por si só suficiente para impedir qualquer progresso mental naqueles que a
possuem”. Isso é mais do que evidente ao longo da História da Humanidade...
A incapacidade do ser humano de fazer
afirmações sobre a existência de Deus é o que, paradoxalmente, mais
impressiona. Em sua diminuta grandeza qualquer pensador, por maior que seja,
estará muito longe de qualquer base de demonstração do que pretenda afirmar.
Mais e mais, à medida que nosso conhecimento sobre a complexidade dos seres e a
essência deles assim como a dimensão incalculável do universo levam-nos a
questionar crenças e convicções.
Podemos transcrever o conceito
“Epistemologia” endossando a hipótese da impossibilidade (Wikipédia em 23 de
dezembro de 2013):
Epistemologia (do grego ἐπιστήμη
[episteme]
- ciência;
λόγος [logos]
- estudo de),
também chamada de teoria do conhecimento, é o ramo da filosofia que
trata da natureza,
das origens e da validade do conhecimento. A epistemologia estuda a origem, a
estrutura, os métodos e a validade do conhecimento, motivo pelo qual também é
conhecida como teoria do
conhecimento. Relaciona-se com a metafísica,
a lógica e
a filosofia da ciência, pois, em uma de suas
vertentes, avalia a consistência lógica de teorias e suas credenciais
científicas. Este facto torna-a uma das principais áreas da filosofia (à medida
que prescreveria "correções" à ciência). A sua problemática
compreende a questão da possibilidade do conhecimento - nomeadamente, se é
possível ao ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno,
dos limites do conhecimento (haveria realmente uma distinção entre o mundo
cognoscível e o mundo incognoscível?) e da origem do conhecimento (Por quais
faculdades atingimos o conhecimento? Haverá conhecimento certo e seguro em alguma
concepção a
priori?).
O pragmatismo é sensível na reação
das pessoas quando se diz a elas que não acreditamos em Deus: “então podemos
fazer qualquer coisa?”.
A figura de um Criador do Universo é
uma simplificação que conduz a outras teses, acima de tudo ao que denominamos
moral. Afinal, se alguém cria alguma coisa pretende extrair dela algum
resultado. Ou seja, nada mais natural do que produzir livros e aulas sobre a
vontade divina. Nesse intuito aconteceram as escolas filosóficas e
universidades.
Já na idade Média as Primeiras Universidades no mundo ocidental apareceram.
Ironicamente a formação de escolas e
universidades gerou a diversidade intelectual, provavelmente em pleno conflito
com as vontades daqueles que as dirigiam.
O ser humano é complexo demais para
simplificações, assim até a capacidade de enfrentar os deuses era um estímulo
aos pensadores e personagens mitológicas como foi Ulisses (Odisseu) após a Guerra de Tróia (Guerra de
Tróia).
Mais concretamente encontramos
algumas pessoas que mudaram caminhos da Civilização Ocidental, assim como
eventos decisivos, tais como a Independência dos Estados Unidos da América do
Norte e a Revolução Francesa.
É importante registrar que o número
de mártires da inteligência humana, de pessoas geniais, cultas e criativas,
suficientemente rebeldes para discordar é incontável e desconhecido. Vale,
contudo, para motivar pensamentos, estudar, ler e ver obras de tempos modernos,
quando a tecnologia e o rompimento das barreiras criadas pelos senhores das
trevas agora permite o prazer de conhecer pessoas extraordinárias que se
destacaram na luta contra os imperadores de consciências.
Escrever, conceituar e propor algum
padrão ético é relativamente fácil quando tudo é precedido pela aceitação de
alguma religião política ou metafísica; ao contrário, escrever e desenvolver um
conjunto de propostas “morais” sem conexão metafísica é fundamental para uma
enorme vivência universal, compartilhando conhecimentos com o atrevimento de
dizer algo mais e diferente.
Estabelecer base para a Ética do
Século 21 significa construir algo fora das facilidades dos milagres e
revelações. Não pode ofender fanáticos, é um caminho improdutivo. Pensar e expressar
convicções comportamentais no século 21 deverá ter como base um medo universal
concreto, algo que intimide as pessoas e as faça pensar sobre seus hábitos e
ações.
Infelizmente o medo é justo e
necessário.
A Humanidade está em situação de
extrema fragilidade. Paradoxalmente o seu desenvolvimento tecnológico criou uma
interdependência planetária, ou seja, qualquer catástrofe em alguma grande
região afetará violentamente as demais. Mais ainda, os jovens estão sendo educados
a viverem com imensas facilidades artificiais.
O planeta Terra passou por um período
de relativa estabilidade, ainda que a Humanidade tenha, como sempre, sofrido
agressões absurdas, inacreditáveis, o que nos autoriza a temer repetições.
Essa combinação de riscos galácticos
e microscópicos aconselham esforços de educação e orientações comportamentais
mais seguras, sustentáveis.
Do geral para os detalhes podemos
partir da proposta de um código de ética universal, aplicável a todos os seres
humanos e que contenha orientações básicas.
Obviamente a aceitação de propostas
morais sofisticadas depende da inteligência humana. Aí a grande esperança, a de
que algum processo de desenvolvimento viabilize a utilização maior do cérebro,
estimulando a racionalidade. Temos um grande potencial governado por glândulas
que podem ser trabalhadas para maior eficácia. É algo que começa, talvez, a ser
feito em grandes e secretos laboratórios.
A generalização da racionalidade não
interessa aos defensores da vida no Além nem a lideranças oportunistas. Isso
sempre limitou a inovação e o crescimento de todos nós. Aos poucos, contudo,
poder-se-á furar, talvez, as censuras e blindagens religiosas e ideológicas.
A construção de um código de ética
laico e universal é importante para, no mínimo, preparar os seres humanos ao
que possa acontecer.
Temos códigos morais extremamente
lindos, louváveis. Serão eficazes ou obstáculos à nossa sobrevivência?
A melhor base de desenvolvimento é
estudar a história de povos dominantes e dominados, fortes e vivos e
civilizações extintas. O que têm a ensinar?
Na vida dos povos podemos sentir
nitidamente os efeitos de religiões com bases belíssimas, mas que significaram
a ruína de e a morte de milhões de pessoas. Com certeza se o objetivo da nossa vida
for a garantia de uma existência melhor em outro mundo a aceitação das leis
religiosas é prioritária.
Acreditando, contudo, que devemos
lutar pela sobrevivência de todos os que nos cercam é imperativo ajustar
filosofias, opções religiosas, políticas e materiais de modo a não termos
dúvidas em relação ao que deveremos fazer para sobreviver, assim como os
limites éticos de cada comportamento.
O dilema de quem pode morrer afogado,
a água sufocando e a possibilidade de salvamento de apenas uma pessoa é o melhor
exemplo do que pretendemos alertar. O sobrevivente sairá dessa condição com
complexo de culpa? Vai estragar sua vida?
Os campos de concentração e ambientes
de extrema miséria estão por aí para mostrar o que é a luta pela sobrevivência.
A educação e o aprimoramento do ser
humano precisam aceitar debates desagradáveis, mas necessários.
O que devemos ensinar e aceitar? Até
onde nossas limitações admitem auto sacrifícios?
Sabemos viver sem religiões e crenças
salvacionistas?
Vivemos em condições extremamente
competitivas, algo que é tão natural que até a concepção é fruto de uma corrida
de espermatozoides. A realidade impõe a quem tem poder a necessidade de
decisões constantes com imenso significado na vida de qualquer pessoa. Não é
sem razão que se criam associações, organizações e compromissos de lealdade.
Todos têm medo de serem prejudicados, ainda que não mereçam maiores
considerações, exceto o “sou seu irmão”, companheiro, patrício, parente etc.
O que não se pode esquecer é a
importância da eficácia de nossas instituições, empresas, de todas as
atividades que qualquer indivíduo exerça. A competência e a importância do
sucesso são inquestionáveis.
A dimensão dos cargos e funções
implicam em códigos de ética específicos, algo que os teóricos e defensores da
igualdade absoluta (normalmente dentro de suas confrarias) desprezam.
A qualidade de vida e a
sustentabilidade dependem mais e mais do sucesso. Se antes podíamos desaparecer
porque éramos poucos e fracos diante de animais e tribos hostis, agora precisamos
de serviços essenciais, de condições de convivência com multidões.
Portanto, que padrões éticos podemos
criar, aceitar e ensinar?
João Carlos Cascaes
Curitiba, 28 de julho de 2016